Se você é um profissional SAP que trabalha com projetos e não sabe o que é Scrum, deveria. Felizmente podemos te ajudar a entender esta jovem metodologia.

Em resumo, Scrum é uma metodologia de gestão de projetos. Talvez por isso, você não tenha interesse em conhecê-lo detalhadamente, já que projetos SAP adotam uma metodologia própria. Mas essa é uma visão enganosa.

Nos últimos anos, muitas empresas vêm adotando métodos ágeis na gestão de projetos, incluindo os voltados para o mundo SAP. E entre os métodos ágeis existentes, Scrum é sem dúvida o mais difundido deles.

Por meio de uma abordagem dinâmica e bastante distinta daquelas adotadas por métodos mais tradicionais, a gestão ágil de projetos incorpora novos processos e novas funções a serem desempenhadas pelos profissionais envolvidos.

Então, se você é um consultor SAP ou um gerente de projetos, as informações abaixo serão muito úteis no seu dia a dia.

Você vai saber mais sobre as principais características do Scrum, sobre os perfis profissionais específicos de seus elementos-chave e sobre a incorporação de conceitos Scrum à metodologia SAP.

Sobre os métodos ágeis

Em 2001, um grupo de 17 pessoas se reuniu para discutir uma nova abordagem em desenvolvimento de software.

Como resultado, foi divulgado o “Manifesto Ágil”, um documento que define os princípios básicos dessa proposta.

De acordo com tal documento, um método ágil (ou agile) deve ser conduzido respeitando os seguintes valores:

  • Mais que em processos e ferramentas, o foco deve estar nos indivíduos e nas interações;
  • Mais que uma documentação abrangente, é preciso ter o software em funcionamento;
  • Mais que a negociação de contratos, deve-se buscar a colaboração com o cliente;
  • Mais que seguir um plano, deve-se responder às mudanças.

A saber, existem diversos métodos classificados como ágeis, sendo alguns deles muito anteriores à publicação do Manifesto Ágil. Entre os principais, destacam-se:

  • Scrum;
  • Kanban;
  • Extreme Programming (XP);
  • Feature Driven Development (FDD);
  • Lean Startup;
  • Outros.

O que é Scrum?

Conforme vimos até aqui, Scrum é uma metodologia ágil de gestão de projetos. Seu funcionamento difere bastante das metodologias mais tradicionais e para entendê-lo, precisamos antes fixar alguns conceitos, como:

  • Scrum Master e Product Owner: dentro da metodologia Scrum, são dois papéis centrais para o andamento de qualquer projeto, desempenhados por profissionais com conhecimentos específicos. Falaremos detalhadamente sobre cada um deles mais adiante.
  • Product Backlog: documento que contém toda a relação de necessidades a serem atendidas por um projeto. Sua elaboração e manutenção cabem principalmente ao Product Owner.
  • Sprint: em Scrum, um projeto deve ser dividido em pequenos ciclos, conhecidos como sprints. Cada sprint tem uma duração bem definida (não mais que algumas semanas), com um conjunto fechado de atividades a ser executado e concluído.
  • Cerimônias: são chamadas de cerimônias determinados eventos-chave que asseguram o início, o andamento e o término de cada sprint no projeto. Garantir a realização das cerimônias está entre as principais atribuições do Scrum Master.

As diferenças entre Scrum e métodos tradicionais

Como veremos mais adiante, a principal diferença do Scrum para os métodos tradicionais está na sua abordagem iterativa.

Métodos tradicionais geralmente adotam o modelo de cascata, em que o projeto é dividido em algumas grandes e sucessivas fases.

Assim, por exemplo, a fase de desenvolvimento propriamente dita, isto é, a construção da solução, só tem início após uma longa e completa fase de levantamento de requisitos, que produz uma vasta documentação.

Por conseguinte, os primeiros testes de validação da solução só começam após a construção, correndo-se o risco de descobrir, após tanto tempo de andamento do projeto, que houve erro no entendimento do problema a ser resolvido.

Outra situação muito comum em projetos de desenvolvimento de software é a frequente mudança de cenários, regras e definições, algo dificílimo de ser gerenciado eficientemente no modelo em cascata.

Ao quebrar o projeto em pequenos ciclos, Scrum cria uma interação constante entre todas as partes envolvidas.

Assim, o projeto fica mais flexível a mudanças, ao mesmo tempo em que permite detectar erros com maior rapidez.

O início do projeto com Scrum

Conforme ressaltado, no método Scrum, um projeto é dividido em pequenos ciclos de curta duração, os sprints.

Assim, mais do que ao início do projeto, podemos nos referir ao início do sprint, que ocorre da seguinte forma:

  • Em uma cerimônia conhecida como Sprint Planning Meeting (Reunião de Planejamento do Sprint), o Product Owner define quais são os itens considerados prioritários dentro do Product Backlog e os apresenta à equipe de desenvolvimento;
  • Com base nessa apresentação, a equipe de desenvolvimento elege quais atividades podem ser executadas e concluídas dentro do sprint que está se iniciando, considerando sempre o prazo estabelecido de sua duração;
  • Por consenso e eventualmente alguma negociação, o Product owner e a equipe de desenvolvimento chegam a uma definição quanto aos objetivos a serem alcançados no sprint;
  • A lista de atividades definida sai então do Product Backlog e passa a integrar o Sprint Backlog, cuja atualização fica a cargo do Scrum Master.

O andamento do sprint

Em seguida à definição do Sprint Backlog, a equipe de desenvolvimento pode dar início às suas atividades.

Durante o andamento do sprint, deve ser realizada diariamente (geralmente pela manhã) uma reunião de posicionamento, conhecida como Daily Scrum.

Embora seja uma reunião breve, o Daily Scrum é uma das cerimônias mais importantes para o sucesso do projeto.

Em nome da produtividade, essa reunião deve ser rápida e objetiva, mesmo porque ela é realizada todos os dias. Há até a recomendação de que os participantes permaneçam de pé.

Dessa forma, em poucos minutos, todos os integrantes da equipe devem relatar as atividades que realizaram no dia anterior, as atividades que têm pela frente no dia corrente e, eventualmente, impedimentos que estejam dificultando o andamento dos trabalhos.

A reunião não tem o objetivo de se estender na discussão de problemas. Assim, em relação aos impedimentos relatados, o Scrum Master deve procurar atuar logo depois, inteirando-se do assunto e buscando possíveis soluções junto às áreas e pessoas que possam interferir.

Ao permitir que toda a equipe fique a par de tudo o que está acontecendo, o Daily Scrum também pode funcionar na redistribuição de tarefas, caso alguma frente se mostre mais sobrecarregada ou coloque em risco o cumprimento dos prazos.

Uma importante ferramenta auxiliar para essa reunião e para o acompanhamento do sprint é o Scrum Board, um painel que fica à disposição de qualquer pessoa que queira se informar sobre o andamento das tarefas.

O Scrum Board é inspirado no método Kanban e consiste de um quadro que mapeia o status das atividades da equipe. Cada atividade é representada por um cartão (ou um post-it, como é mais comum) afixado no quadro.

Ultimamente, surgiram ferramentas eletrônicas para a realização desse controle.

O término do sprint

O final de um sprint é marcado por mais uma cerimônia, o Sprint Review Meeting, ou reunião de revisão do sprint, em que a equipe apresenta todo o desenvolvimento concluído na etapa.

Dessa reunião costumam participar não apenas a equipe de desenvolvimento, o Product Owner e o Scrum Master, mas também outras pessoas e áreas envolvidas e atendidas.

Em seguida, outra cerimônia, o Sprint Retrospective, tem o objetivo de fazer uma espécie de balanço da etapa que acabou de ser concluída. Nessa reunião, a equipe identifica itens como:

  • Os pontos positivos do trabalho realizado;
  • Os pontos em que é preciso melhorar;
  • O aprendizado adquirido;
  • Etc.

O próximo passo é planejar o sprint seguinte, dando início a um novo ciclo.

Algumas particularidades no trabalho com Scrum

Como se vê, Scrum se baseia em princípios simples. Entretanto, há alguns detalhes essenciais para o seu funcionamento. Por exemplo:

  • O Product Owner deve ser alguém que alia a visão do negócio à facilidade de entendimento com a área técnica.
  • O Scrum Master não exerce qualquer papel de chefia junto à equipe de desenvolvimento. O que deve existir é uma relação funcional, em que o Scrum Master atua como um facilitador, contribuindo para a plena aplicação da metodologia.
  • Em Scrum, não há a figura do gerente de projeto, valoriza-se a responsabilidade individual de cada membro da equipe. Assim, não há um líder específico a quem se reportar. Todos se reportam a todos.
  • Na medida do possível, a equipe deve ser autossuficiente, isto é, ter o domínio de todos os conhecimentos e habilidades necessários ao projeto. Eventualmente, em casos muito específicos, poderá contar com o auxílio de um especialista externo.
  • Uma equipe eficiente não deve ter mais que 9 integrantes.

O Scrum Master

Conforme ressaltado, o Scrum Master não é o chefe da equipe de desenvolvimento, ou seja, ele não atua como gestor da equipe. Mas podemos considerá-lo como um gestor dos processos aplicados pela equipe durante o andamento de um projeto.

Em um projeto, o Scrum Master pode assumir as seguintes responsabilidades:

  • Atuar na busca de soluções para os impedimentos que ameaçam o andamento das atividades;
  • Disseminar o Scrum para todas as áreas da empresa, mesmo as que estejam distantes do projeto;
  • Orientar a equipe de desenvolvimento quanto à aplicação da metodologia;
  • Incentivar a autonomia dos membros da equipe na resolução de problemas;
  • Proteger a equipe contra a ação de interferências externas;
  • Estimular o trabalho colaborativo entre a equipe do projeto e as áreas envolvidas.

Quem é o Scrum Master

Um Scrum Master deve ter tipicamente o seguinte perfil:

  • Ter total domínio da metodologia: em um projeto, o Scrum Master é a autoridade máxima em relação à metodologia e às formas de aplicá-la. O Scrum Master não precisa conhecer negócios e nem mesmo o lado técnico do desenvolvimento.
  • Ter atitude de colaboração: a principal colaboração que o Scrum Master pode oferecer à equipe de desenvolvimento é a de estimular a autonomia de cada um de seus integrantes.
  • Ter iniciativa: diante de qualquer ameaça ao andamento do projeto, cabe ao Scrum Master interceder.
  • Agir com transparência.

O Product Owner

O Product Owner é quem traz para o projeto a visão das áreas de negócios. Entre as suas responsabilidades em um projeto destacam-se:

  • O planejamento de cada etapa do projeto, com seus objetivos e entregas específicos.
  • A gestão do conhecimento sobre os produtos ou serviços.
  • A documentação e a priorização dos requisitos do produto ou serviço.
  • A interface com a equipe de desenvolvimento, principalmente para transmitir todas as necessidades do cliente.
  • O estabelecimento do cronograma de entregas do projeto.
  • A validação das entregas de cada Sprint.
  • A atualização do Product Backlog.

Quem é o Product Owner

Para lidar com suas responsabilidades, o Product Owner precisa desenvolver competências como:

  • Capacidade de planejamento e gestão: o Product Owner lida diretamente com gestão de prazos e com o product backlog.
  • Visão analítica: o Product Owner precisa incorporar toda a visão de negócios para transmitir corretamente as necessidades ao pessoal técnico.
  • Relacionamento interpessoal: contato com outras pessoas e áreas é uma constante na atividade do Product Owner.
  • Flexibilidade: metodologias ágeis se caracterizam pela facilidade de absorver mudanças de andamento.

Como se tornar Scrum Master ou Product Owner

A crescente adesão às metodologias ágeis trouxe uma demanda maior por profissionais como o Scrum Master e o Product Owner.

Assim, temos duas interessantes opções a serem consideradas nos planos de carreira de profissionais que já atuam em outras funções ou que querem iniciar sua jornada no mercado de trabalho.

Existem diversos treinamentos disponíveis para essas especializações, muitos deles na forma de cursos online.

Além disso, há certificações emitidas por instituições como a Scrum.ORG, a Scrum Alliance, a ScrumStudy, o PMI e a EXIN.

Alguns profissionais atuam no mercado sem qualquer certificação, levantando dúvidas quanto à sua necessidade e validade. Porém, com o aumento da procura por essa formação, a certificação tende mesmo a ser um diferencial no currículo.

É importante salientar que a capacitação do Product Owner envolve mais a gestão de produtos do que propriamente os métodos ágeis, lidando com conhecimentos como negócios, mercados, experiência de usuário, análise de dados e marketing digital.

O método Scrum em projetos SAP

A princípio, a SAP definiu uma metodologia própria para desenvolvimento de projetos, o Accelerated SAP (ASAP), baseado no modelo em cascata.

Posteriormente, a empresa criou um novo método, o SAP Activate, incorporando conceitos das metodologias ágeis,

Assim, de forma gradual, o Activate vem tomando o lugar do ASAP, à medida que cresce a base instalada do sistema S/4 HANA em relação às versões anteriores do SAP ERP.

Com efeito, o que se tem visto com o SAP Activate é a adoção de modelos híbridos que incorporam práticas e conceitos do Scrum em determinados contextos do projeto, principalmente no gerenciamento mais detalhado da fase de desenvolvimento.

É provável que na transição para o Scrum, ou no convívio entre Scrum e SAP Activate, surjam dificuldades de adaptação, principalmente em relação à autonomia das equipes de desenvolvimento e à ausência do gerente de projeto (ainda que seja uma ausência parcial, no caso de modelos de gestão híbridos). Mas esses são obstáculos que tendem a desaparecer com o tempo e a prática

Conclusão

A substituição do método ASAP pelo SAP Activate é uma tendência irreversível, assim como fora do mundo SAP o Scrum vem tomando o lugar das tradicionais metodologias baseadas no modelo em cascata.

Assim, para quem lida ou pretende lidar com projetos SAP, é fundamental que passe a entender o que é Scrum e inclua esse conhecimento ao seu perfil profissional.

No mercado, além dos já citados treinamentos para Scrum Master e para Product Owner, existem também, em meio a diversos cursos SAP, alguns voltados especificamente para a metodologia SAP Activate.